William Mendonça
POESIA, PROSA, MÚSICA E TEATRO
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Textos

DUST IN THE WIND

 

   Se eu deixasse de existir agora. Morto, esquecido. Cremado para nunca ser exumado. As cinzas espalhadas em algum vento de abril, porque os ventos de outono vão mais longe. Não semearia nada, fruto nenhum a buscar raízes. Não teria voz nem espectro, cantando à noite nas janelas.

   Mas quem disse que quero fazer poesia? Menos ainda, que quero deixar de existir? Só falo essas coisas porque penso em voz alta, mesmo agora, mesmo aqui.

   - São questões angustiantes - ele diz, sem que eu tenha certeza se é ele quem diz, ou se sou eu quem penso.

   De tudo que menos me interessa no mundo (e quase nada está longe de meu interesse) certamente a voz do meu analista é a coisa mais dispensável. Desnecessária.

   - Você poderia não vir. Não é uma sentença. Não há obrigação - ele insiste em me interromper. A esta altura, preferia estar lendo um bom livro, é fato. Mas venho voluntariamente. Às vezes para ser estudado. Noutras, para estuda-lo. Ambos, ratos do mesmo laboratório. Experiências. Hipóteses.

   Peço para colocar uma música, mas descubro que isso contraria as regras. Nem contrato há nessa relação, mas há regras. Explícitas. Implícitas. Poderia ser pior. Imagine uma confissão, um padre, a esta altura da vida, tantos pecados quanto cabelos brancos. 

   - Os nomes definem coisas, não é? - pergunto sem mesmo saber o motivo. Ele me olha aguardando a resposta tanto quanto eu. - Os nomes, os substantivos. Eles definem, conceituam as coisas, ou são elas que os definem?

   O silêncio nessas horas é pior que o vazio, porque é tempo e espaço simultaneamente. Dois valores da mesma ausência.

   - Por que isso te interessa? - ele pergunta, fingindo algum interesse além das contas a pagar.

   - Porque se tantas palavras me definem, o meu nome, o sexo, a raça, a profissão, tanta coisa, caso eu deixasse de existir, o que essas palavras definiriam? A minha ausência?

   Nem assim ele parece sair do torpor, que deveria ser meu, mas é do mundo à minha volta. Meu olhar desvia um segundo para a janela panorâmica de cara para outra janela panorâmica, vidro encarando vidro no meio de tanto concreto. Eu pensaria sobre isso.

,   - Tem certeza de que você não quer mesmo deixar de existir?

   Ele se levanta, antes de uma resposta, abre a agenda e me convida a levantar, com um gesto já conhecido. Tudo tão sem propósito. Antes de chegar à porta, deixo um pensamento solto sair sem coleira ou guia.

   - Conceitualmente, de fato, nem sei existo.

 

(Movido por uma canção do Kansas)

William Mendonça
Enviado por William Mendonça em 21/06/2026
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